terça-feira, 9 de agosto de 2011

Líbia: a morte do comandante ‘rebelde’




Da discussão de pauta, na Vila Vudu:

“Acho que esse artigo é muito jornalístico – portanto não nos interessa.
Ninguém aqui tem qualquer interesse por ou obrigação de ouvir/ler o que pense um ou outro jornalista ou um ou outro Murdoch, sobre seja lá o que for.

Mas nenhum jornal ou jornalista brasileiro sabe porra-nenhuma sobre a Líbia. Por aqui, a única coisa que a imprensa oferece é o papim fraco dos mervais e uíliam vacks e demétrios magnólias. E mesmo esse naaaaaaaaaaaaaada nunca passa de repetição de releases do Departamento de Estado dos EUA, da CIA
ou de agências de notícias que, idem, só fazem repetir releases etc. etc. etc., como o New York Times; ou é opinião fraca da USP udenista tucana golpista.

Nós trabalhamos sempre pra dar voz clara a UM LADO – o nosso. Em matéria de ‘ouvir os dois lados’ à moda do jornalismo que há, já nos bastam os dois lados do sempre mesmo Murdoch. Como todos sabemos, nunca houve, não há nem jamais haverá Murdochs éticos, nem Murdochs democráticos.

Mas acho que sim, podemos traduzir. Há aí melhor informação que em qualquer jornal brasileiro. E a seleção de matérias que há nas notas pode ser útil para quem esteja acompanhando o noticiário (nossa camaradinha Lica, que está fazendo exatamente isso, disse que os artigos selecionados nessas notas não são nenhuma Brastemp, mas são muito melhores que qualquer coisa que tenha sido publicada na ‘grande’ imprensa brasileira).

Metemos aspas de ironia em todos os ‘rebeldes’ e ‘revolucionários’ que o jornalista ‘isento’ escreva com pompa e circunstância (e com lado, é claro, mas nunca declarado); e escrevemos uma nota, pra chamar a atenção para o fato de que o jornalista escreve de Telavive.

Nenhum jornalista que tenha de trabalhar em Telavive JAMAIS escreverá matéria assinada em que informe, decentemente, que a guerra da Líbia foi INVENTADA e IMPOSTA à Líbia, por EUA-OTAN, interessados em destruir a Líbia de Gaddafi, porque Israel acha-que-sim.

Na matéria abaixo, de fato, a única notícia que se lê é que o calorão, o jejum de Ramadã, as tempestades de areia e a “complexidade do conflito” venceram a guerra na Líbia. Gaddafi nem passou por lá, nem derrotou os EUA-OTAN. E os ‘rebeldes’ hoje, já em pleno salve-se-quem-puder, não temem mais pelos próprios pescoços, que por alguma democracia.

De fato, pensando bem... fica-se sem saber o que, diabos, a CIA tanto espiona, que não sabia, sequer, da “complexidade do conflito” naquela parte do mundo! [gargalhadas e aplausos].

Se Obama – que estava ao lado da presidenta Dilma quando ordenou o ataque à Líbia – tivesse perguntado, a presidenta Dilma teria dito: “Não se meta lá. É fria.” Meteu-se Obama de pato do AIPAC a ganso do AIPAC, e levou um creu. Que utilidade teve a CIA?!

Se o que a CIA sabe fazer é ‘prever’ que a Líbia corre risco de virar “mais uma Somália, dessa vez na costa Mediterrânea”, sinceramente, se a CIA trabalhasse pra mim, eu demitia por incompetência. E esse trecho do artigo, por absolutamente ridículo, a gente não traduz.

Não traduzimos tampouco os parágrafos em que o jornalista ‘informa’ que a segurança do ocidente estará ameaçada se Gaddafi meter na cadeia (ou fuzilar) tooooooooooooooooooooodos os ‘rebeldes’. Isso, o Estadão já (des)informa todos os dias. E, OK, aproveitamos, do artigo, o que presta.

Melhor pra nós se, em breve, as notas introdutórias das nossas traduções trouxerem mais reflexão aproveitável que qquer coisa que a gente traduza de jornais. Só a luta ensina!

Contudo, claro, desde que todos os cidadãos consumidores de jornais sejam devidamente alertados para a péssima qualidade do jornalismo que lhes é impingido (e VENDIDO!), pode-se ler qualquer coisa. Claro. Liberdade TOTAL.

No Brasil, por exemplo, a Folha de S.Paulo, por exemplo, tem todo o direito de publicar o que dê na telha da D. Danuza. Mas a empresa deve ser obrigada por lei a trazer na primeira página, em espaço equivalente a no mínimo ¼ de página, como já se faz nos cigarros, o seguinte

ALERTA AOS CONSUMIDORES: A Folha de S.Paulo pressupõe que você seja perfeito idiota. Para o caso de você ainda não ser perfeito idiota, a Folha de S.Paulo dedica-se a torná-lo perfeito idiota. Assim, fica todo mundo avisado. Se você, consumidor, não se incomodar com ser engambelado diariamente pela Folha de S.Paulo, pague, por favor, ao jornaleiro (ou por boleto, ou pelo cartão) o muito caro que a Folha de S.Paulo lhe cobra para imbecilizá-lo... e deixe-se imbecilizar à vontade. O dinheiro é seu. A liberdade de informação, também.”

Por tudo isso, e sob as condições acima (o que não se traduz e CORTA-SE do artigo abaixo), voto a favor de traduzirmos o artigo abaixo. É o meu voto.” [Voto aprovado por aclamação]
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Líbia: a morte do comandante ‘rebelde’
30/7/2011, Victor Kotsev, Asia Times Online

O assassinato do comandante militar dos ‘rebeldes’ líbios, general Abdel Fattah Younes pode levar a violenta cisão entre as forças de oposição a Gaddafi – que viria num momento em que a ofensiva da oposição já perde ímpeto, antes do início do mês do Ramadan, em agosto, quando o calor inclemente e o jejum obrigatório tornam os combates mais lentos e mais difíceis.

A morte do general, cujo corpo, com os de dois de seus principais auxiliares foi encontrado queimado na 5ª-feira, traz à luz uma rede extensa e complexa de relações de poder e rivalidades que invade os dois lados em luta. É prova de o quanto é fluida a situação na Líbia, com camadas superpostas de lealdades, que se modificam a todo o momento.

O espectro de uma invasão por terra, por forças da Aliança do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), já parece afastado. Já não se ouve o bravado do ocidente que se ouvia há apenas um mês – quando o exército britânico, além de outros, já preparava planos detalhados para uma Líbia de ‘depois de Gaddafi’ [1]. Esses planos saíram de cena, por uma combinação de fracassos em terra, falta de disposição política dos estados que enviaram soldados para a Líbia e os firmes protestos de Rússia, China dentre outros atores internacionais. (...)

Notícias sobre a morte do general Younes começaram a aparecer imediatamente depois que os líderes rebeldes anunciaram que o general fora preso; em seguida, as notícias foram corrigidas: o general teria sido “chamado do front”, para ser interrogado sobre suspeitas de que teria ajudado Gaddafi secretamente. O assassinato teria ocorrido quando o general voltava ao front, e o líder do grupo que o matou teria sido preso. Mas na manhã de 6ª-feira não houve novas notícias, e começaram a surgir boatos sobre quem, de fato, seria responsável.

Younes, que era tido como o segundo homem mais importante da Líbia, abaixo só de Gaddafi, antes de desertar em fevereiro, acompanha Gaddafi desde a revolução de 1969. Foi ministro do Interior, ativo várias vezes na repressão contra dissidentes, ao longo dos anos; muitos rebeldes, diz o noticiário, várias vezes manifestaram dúvidas sobre sua lealdade.

O fracasso do recente ataque pelos ‘rebeldes’ aos poços de petróleo de Brega, que resultou em várias baixas, parece ter despertado nova onda de suspeitas contra o general. Os ‘rebeldes’ atribuíram a derrota a uma “traição”, nas palavras de um comandante, em entrevista à rede al-Jazeera, há dez dias. [2]

No início de abril, a filha de Gaddafi, Aisha, insinuou, em entrevista, que Younes continuaria leal a seu pai. Mas Gaddafi criou um prêmio pela cabeça de Younes. A entrevista, portanto, pode ter visado a desacreditar o general no campo ‘rebelde’. (...)

As defecções não são raras, no conflito líbio, dos dois lados. Nos primeiros protestos, jornalistas ocidentais surpreenderam-se ao ver gente que participava tanto dos protestos contra Gaddafi, quanto nas manifestações a favor.

É possível que Younes tivesse várias lealdades. Isso também significa que, tão cedo, não saberemos exatamente quem esteve por trás do atentado que o matou. Os ‘rebeldes’ dizem que o general teria sido assassinado por “uma célula” pro-Gaddafi [o New York Times também diz, igualzinho. O New York Times, além do mais, só faz advertir contra o risco de “grave violência tribal, como em outras partes da África” [3]. É informação tão acurada e isenta quanto o Estadão ‘informar’ que haverá um desfile de moda na Vila Madá, em Sampa, “como em outras partes do Cone Sul”. Ninguém precisa saber o que o NYT pensa sobre coisa alguma. Quantos votos teve o NYT? (NTs)].

Há notícias sobre importante cisão dentro do campo ‘rebelde’, entre atuais ‘rebeldes’ que por muito tempo foram aliados de Gaddafi e revolucionários com passado limpo. [Como assim... “limpo”?! Cadê o jornalismo isento, sô?! Quem precisa saber o que pensa o jornalista?! Quem precisa desse jornalismo?! (NTs)]

Seja como for, não é fácil definir o que seja passado limpo na Líbia [e onde, diabos, seria facílimo definir “passado limpo”?! Parece a cabeça da D. Danuza, sô! (NTs)].

Para aumentar a complexidade da situação, o principal chefe rival de Younes no campo rebelde era o general Khalifa Hifter, que desertou em 1987 e viveu durante décadas nos EUA, até voltar à Líbia, em março, para juntar-se aos ‘rebeldes’.

Hifter, que goza da confiança dos ‘rebeldes’ por ter passado limpo é, sabidamente, ligado à Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA. Daí nasceram suspeitas de que a agência norte-americana pode também estar implicada no assassinato.

Além disso, os objetivos da guerra vão-se rapidamente centrando em obter dinheiro e conquistar recursos naturais. Não por acaso, a mais recente ofensiva dos ‘rebeldes’ visou a cidade de Brega, no leste. “A batalha na Líbia vai aos poucos se transformando, de desejo de conquistar territórios, para desejo de controlar recursos” – noticiou Anita McNaught, da rede al-Jazeera, há uma semana [4].
Outro dos motivos que têm aparecido como centrais, nos movimentos diplomáticos dos ‘rebeldes’ líbios, é obter acesso ao dinheiro. Para tanto, os ‘rebeldes’ tentam conseguir que sejam reconhecidos como legítimo governo líbio por outros países. [5] Querem ter acesso a dezenas de bilhões de dólares que estão congelados no ocidente; querem também poder receber ajuda militar, de que os rebeldes carecem desesperadamente: armas, munição, salários, comida e remédios.

Há fontes que dizem, até agora como pura especulação, que os ‘rebeldes’ têm planos de construir um exército mercenário para combater Gaddafi no futuro. A informação não foi confirmada, mas persistem muitas dúvidas quanto à identidade e o comportamento das forças ‘rebeldes’. Mesmo jornais simpáticos aos ‘rebeldes’, como al-Jazeera, já dizem que eles não seriam tão democráticos ou amantes da paz quanto querem fazer crer [6].

A ONU já acusou formalmente os dois lados por prática de crimes de guerra. [7] O assassinato de Younes, se foi crime de um dos lados em confronto, será exemplo claro das táticas brutais empregadas na Líbia, pelos dois lados. Se continuarem a surgir notícias sobre essas atrocidades, pode ser o fim de qualquer legitimidade da campanha das forças internacionais e da OTAN.

Em qualquer caso, a OTAN, a única força militar que efetivamente ainda apóia os ‘rebeldes’, já trabalha pressionada num cronograma estrito, embora não o declare. Muitos países-membro já não demonstram qualquer empenho político ou disposição para consumir recursos (ou não têm, mesmo, recursos a desperdiçar), na guerra. E logo começará o outono, época de tempestades de areia na Líbia, quando o potencial bélico dos jatos da OTAN será drasticamente reduzido.

Dado que já não se cogita de invasão por terra na Líbia, os dois cenários gêmeos, de colapso dos ‘rebeldes’ e de vácuo de poder no país, tomam a cena. Em agosto, mês do Ramadã, não se deve esperar que os ‘rebeldes’ derrotem Gaddafi pela força. E estão bem próximos de perder a OTAN, sua principal aliada. (...)

NOTAS
1. Libya after Gaddafi, Asia Times Online, 5/7/2011 (http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/MG06Ak02.html).
2. Libyan rebels pushed back from Brega, al-Jazeera, 19/7/2011 (http://english.aljazeera.net/news/africa/2011/07/201171922526752203.html).
3. Death of Rebel Leader Stirs Fears of Tribal Conflict, The New York Times, 28/7/2011 (registration required) (http://www.nytimes.com/2011/07/29/world/africa/29libya.html?_r=1.
4. Libyan rebels fight for resources, al-Jazeera 21/7/2011 (http://english.aljazeera.net/video/africa/2011/07/201172134513878454.html.
5. Seeking to free funds, U.S. recognizes Libya rebels, Reuters, 15/7/2011 (http://www.reuters.com/article/2011/07/15/us-libya-meeting-usa-idUSTRE76E2QF20110715).
6. Alleged abuses take shine off Libya's 'freedom fighters', al-Jazeera 13 July 2011 (http://blogs.aljazeera.net/africa/2011/07/13/alleged-abuses-take-shine-libyas-freedom-fighters).
7. Libya conflict: UN accuses both sides of war crimes, BBC 1 June 2011 (http://www.bbc.co.uk/news/world-africa-13622965)

sábado, 6 de agosto de 2011

Porque os EUA atacam a Líbia




Documentos da WikiLeaks lançam luz sobre por que os EUA apoiaram a intervenção na Líbia

Robert Morgan

Documento diplomático dos Estados Unidos publicado pela WikiLeaks expõe algumas das razões reais e as tensões diplomáticas por trás do bombardeio da OTAN em curso na Líbia. Longe de iniciar uma intervenção "humanitária" para proteger os civis contra o governo de Muammar Khaddafi, Washington apoiou a intervenção da OTAN por uma única razão, a instalação de um regime que melhor sirva aos interesses estratégicos dos EUA, assim como as operações das gigantes empresas de petróleo e gás.
Os documentos remontam a 2007, cerca de três anos após a administração de Bush ter retirado as sanções e formalmente reestabeleceu relações com o regime de Khaddafi em uma tentativa de garantir o acesso aos recursos mais valiosos da Líbia. Até a eclosão de levantes revolucionários em todo o Oriente Médio este ano, Khaddafi foi recebido de braços abertos em Washington e internacionalmente.
Como os documentos demonstraram, recentemente em agosto de 2009, o senador dos Estados Unidos John McCain liderou uma delegação de alto nível de ambos os partidos do Congresso para se reunir com Khadhafi. McCain caracterizou o "ritmo geral das relações bilaterais como excelente." O senador Joe Lieberman disse que "nunca teríamos imaginado 10 anos atrás que estaríamos sentados em Trípoli, sendo recebidos por um filho de Muammar al-khaddafi," antes de chamar a Líbia de um "aliado importante na guerra contra o terrorismo”.
Não é de admirar que os documentos se refiram a “produção potencial de hidrocarbonetos" da Líbia e as "grandes expectativas" entre as companhias internacionais de petróleo. Significativamente, o regime de Khaddafi ofereceu a Washington à possibilidade de riqueza ainda maior. De acordo com um documento de setembro de 2009, o então diretor interino da Corporação Nacional de Petróleo da Líbia (NOC), Ali Sugheir, disse a embaixada dos EUA que grandes "bacias sedimentares com recursos de petróleo e gás foram descobertas na Líbia", com dados sísmicos indicando que "muito mais a ser descoberto em todo o país.”
A luta de dezenas de companhias internacionais de petróleo e gás em ganhar com o fim das sanções, no entanto, logo produziu dois grandes problemas para o governo dos EUA. Em primeiro lugar, nas palavras do documento de novembro de 2007, "nacionalismo dos recursos líbios" as políticas destinadas a aumentar “o controle e participação do governo líbio nos rendimentos dos recursos do hidrocarbonato”. A conclusão unânime do documento é de que os EUA devem demonstrar "as desvantagens claras" ao regime líbio deste caminho.
A política de Khaddafi forçou as empresas de petróleo e gás em renegociar seus contratos sob a última versão do acordo líbio de participação de exploração e produção (EPSA IV). Entre 2007 e 2008, grandes empresas como ExxonMobil, Petro-Canadá, Repsol (Espanha), Total (França), ENI (Itália) e Ocidental (EUA) foram forçadas a assinar novos acordos com o NOC – em termos muito menos favoráveis do que tinham desfrutado anteriormente - e levados a pagar coletivamente U$ 5,4 bilhões em adiantamento de "bônus" de pagamento.
Um documento em Junho de 2008 diz que o grupo Oasis- incluindo as empresas americanas ConocoPhillips, Marathon e Hess – estavam segundo boatos "o próximo bloco", apesar de terem pagado US $ 1,8 bilhão em 2005. O documento questiona se a Líbia podia ser confiável em honrar os novos contratos EPSA IV, ou iria mais uma vez “querer uma fatia maior”.
O documento ainda discute as implicações mais amplas dos contratos EPSA IV. Enquanto que os contratos eram “amplamente benéficos” para as companhias de petróleo, que defendiam em fazer um grande acordo em “mais dinheiro por barril de petróleo produzido," a ameaça de renegociação forçada dos contratos criou um perigoso precedente internacional “um novo paradigma para a Líbia que está manipulando por todo mundo em um número crescente de países produtores de petróleo.”
Os gigantes do petróleo e o governo dos EUA ficaram alarmados com as ameaças feitas por Khaddafi, em janeiro de 2009, em uma vídeo-conferência para estudantes da Universidade de Georgetown, de nacionalizar as indústrias de óleo e gás. Um documento de janeiro 2010 relata que "o regime de retórica no início de 2009 envolvendo a possível nacionalização do setor de petróleo... trouxe o assunto novamente à tona."
Khaddafi também tentou forçar as companhias petrolíferas internacionais (IOCs) em contribuir com o Acordo Estados Unidos - Líbia de Compensação de Reivindicações. Assinado em agosto de 2008, o acordo estabeleceu um fundo para vítimas de atentados envolvendo os dois países. Dois documentos de fevereiro 2009 relataram que a Líbia apresentou as companhias de petróleo um ultimato: contribuir para o fundo ou "sofrer sérias conseqüências”. O Presidente da NOC, Shukri Ghanem, se referiu explicitamente às ameaças feitas por Khaddafi de nacionalizar a indústria do petróleo. O embaixador dos EUA advertiu que colocando pressão "sobre as empresas dos EUA cruzou uma linha vermelha". "Ele exortou Ghanem e seus colegas em considerar a relação de longo prazo com os Estados Unidos."
A segunda conseqüência indesejável com o fim das sanções foi isto permitiu a Líbia que desenvolver relações mais estreitas com os rivais dos EUA, especialmente na Europa, China e Rússia. Um documento de junho de 2008 descreve um surto "recente de interesse na Líbia da parte de companhias internacionais de petróleo não ocidentais (principalmente da Índia, do Japão, da Rússia e da China), que ganharam a maior parte das concessões da NOC nas últimas rodadas.”
Um documento de março de 2009 descreve como o Primeiro Ministro da Itália Silvio Berlusconi testemunhou a ratificação do tratado Itália e Líbia de "amizade e cooperação", no qual a Itália teria que pagar US $ 200 milhões por ano durante 25 anos como compensação pelo "erro de colonização", em troca da garantia da" escolha de empresas italianas para projetos de desenvolvimento.” Um oficial italiano disse a embaixada dos EUA que a categoria dos interesses da Itália na Líbia é "petróleo, petróleo, petróleo e migração."
A crescente presença da China também levantou preocupações. De acordo com um documento de fevereiro de 2009, a Companhia de Estrada de Ferro da China foi premiada com contrato de US $ 805 milhões naquele ano e um contrato de US $ 2,6 bilhões ano anterior. Um documento de maio de 2009 relata que Khaddafi disse ao comandante americano do Comando Africano Geral, William Ward, que a "China prevalecerá” na África, “porque ela não interfere em assuntos internos". Um documento de setembro de 2009 disse "empresas chinesas construíram nichos para si no mercado líbio, isto é, na construção e telecomunicações.”
Vários documentos apontam para o estreitamento das relações da Líbia com a Rússia. Em abril de 2008, o presidente russo Vladimir Putin voou para a Líbia, acompanhado por 400 delegados, jornalistas e executivos, para garantir um "acordo de permuta da dívida de US $ 4,5 bilhões da Líbia da era soviética para a Rússia" por "um grande contrato para o transporte ferroviário e vários contratos futuros em construções residenciais e desenvolvimento elétrico”. Vários memorandos de entendimento foram assinados com o gigante russa de energia Gazprom. Nessa reunião, Khaddafi expressou sua oposição à expansão da OTAN à Ucrânia e a Geórgia, ambas as questões sensíveis para a Rússia.
Mais significativo a partir de uma perspectiva estratégica americana, Khaddafi aparentemente "manifestou sua satisfação que a maior resistência da Rússia pode servir como um contrapeso necessário ao poder dos EUA, ecoando o apoio comum do líder líbio de um sistema internacional multipolar.”
Neste contexto, os Estados Unidos cultivaram relações com certas figuras do regime de Khaddafi, e secretamente discutiram os benefícios da remoção Khaddafi de cena. Um documento de julho de 2008 relata como o Sr. Ibrahim Meyet, um "amigo próximo" de Ghanem (e uma fonte a ser protegida), disse a embaixada dos EUA que ele e Ghanem "concluíram que não haverá uma verdadeira reforma econômica e política na Líbia até Khaddafi sair da cena política", e isso "não vai ocorrer enquanto Khaddafi estiver vivo.”
Outro documento de janeiro de 2009 disse que havia boatos de "duas linhas de pensamento" no governo da Líbia - um "pró-americano e um grupo que permaneceu desconfiado dos motivos dos Estados Unidos e firmemente contra um conjunto mais amplo de participação." Enquanto Khaddafi e seus filhos aparentemente pertenciam ao "grupo pró-americano", Khaddafi "apoiou uma maior cooperação dos Estados Unidos e Líbia, mas com" desconfianças "nascidas de uma preocupação constante que o objetivo final do compromisso dos Estados Unidos com a Líbia fosse à mudança de regime " (adicionar importância).
Os medos de Khaddafi eram bem fundados. Nos bastidores, as tensões cresceram com a chegada da administração Obama. Um documento de fevereiro de 2009 disse que o Governo líbio estava "ansiosos que o novo governo dos EUA poderia adotar políticas muito diferentes para a Líbia.” Refere-se a "pessoas poderosas na Líbia que se opõem fortemente em melhorar as relações com os Estados Unidos, que pode perder muito se a alterações no sistema já existente mudar de forma significativa, e eles vê os EUA provavelmente como um catalisador para tal reforma.”
Os documentos mostram que o governo dos EUA monitorava de perto a oposição política ao regime de Khaddafi no leste da Líbia, onde é agora a base do Conselho Nacional de Transição "rebelde". Um documento de fevereiro 2008 refere-se a uma política deliberada do governo da Líbia para "manter os o leste pobre como um meio de limitar a ameaça política potencial para o regime de Khaddafi," o que levou "muitos jovens no leste da Líbia" a acreditar que não tinham "nada a perder por participação na violência extremista no país" e contra as forças dos EUA no Iraque.
As relações também se intensificaram com elementos dentro do governo de Khaddafi. Quando o chanceler Musa Kusa se reuniu com o general William Ward, em maio de 2009, ele recordou o general que ele “compartilhava suas opiniões com frequência e abertamente com seus contatos americanos na Agência Central de Inteligência (CIA) e do Departamento de Estado”. Kusa fugiu da Líbia para a Inglaterra em um jato particular em 30 de março deste ano.
Os documentos do WikiLeaks também mostram que a proposta do governo de Obama para derrubar o governo da Líbia e o seu reconhecimento ao regime “rebelde” não eleito em Benghazi não têm nada a ver com as preocupações de "ajuda humanitária”. Por outro lado, a Casa Branca respondeu aos efeitos desestabilizadores do conflito que estourou nos países árabes, incluindo na Líbia, virando bruscamente contra o seu "importante aliado".
A administração Obama ativou preparações, remontando a pelo menos 2007, para derrubar o regime e instalar mais um aliado aos interesses dos EUA. Longe de proteger os civis, o governo dos EUA procurou evitar qualquer revolta popular genuína contra Khaddafi, com tudo calculado com base em considerações de ordem econômica e estratégica, impulsionado em galgar grande poder de rivalidade e lucros corporativos.

http://www.wsws.org/articles/2011/jul2011/wiki-j27.shtml

Fonte: CiberNoticiasExpress

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O presidente que se rende


Mehdi Hasan, The New Statesman, UK
http://www.newstatesman.com/blogs/mehdi-hasan/2011/08/obama-debt-president-spending

O ‘acordo’ de Obama não é acordo: é capitulação. E havia alternativas.

“Conseguimos 98% do que queríamos” – disse o Republicano John “o lado escuro da força” Boehner, presidente da Câmara de Deputados, sobre o acordo da dívida firmado entre Obama e os Democratas e Republicanos do Congresso.

No resumo feito pela BBC[1], o acordo inclui:

* Cortes de 900 bilhões nos gastos do governo, divididos entre gastos da Defesa e outros gastos;

* Criação de um “supercomitê” bipartidário no Congresso, para recomendar outros 1,5 trilhão de dólares de gastos a serem cortados ao longo de 10 anos, contados a partir de novembro; e

* Cortes em áreas chaves, entre as quais defesa e educação, a serem implantados automaticamente, se o supercomitê não conseguir construir acordo.

É difícil não concordar com Boehner. Obama começou por pedir aumento “limpo” no teto de $14,2 trilhões para o endividamento; depois, passou a pedir que houvesse cortes correspondentes nos impostos e nos gastos. Nada conseguiu. Sequer conseguiu que os doidos do Tea Party aceitassem abolir a isenção de impostos sobre jatos privados![2]

O déficit no orçamento dos EUA será pago pelos mais pobres. Eis o que se lia na página Hedgefund.net[3]:

“Administradores e gerentes de empresas de hedge e derivativos, como muitos outros no mundo dos investimentos, respiraram aliviados quando o presidente Barack Obama anunciou no domingo à noite, um acordo provisório para elevar o teto do endividamento dos EUA”.

Os defensores de Obama reagiram contra críticas ao presidente, perguntando sem parar “e que alternativa havia?” “Qual seria a SUA alternativa?”

Ora, ora... Para início de conversa, como diria Jack o Estripador, “Eu não teria começado por aí.”

Paul Krugman dá alguns detalhes[4]:

“O presidente, dessa vez, tinha alternativas? Sim.

Primeiro, podia e devia ter exigido o aumento no teto de endividamento em dezembro. Perguntado sobre por que não o fez, respondeu que tinha certeza de que os Republicanos agiriam responsavelmente. Grande ideia!

E mesmo depois, o governo Obama poderia ter recorrido à manobra legal de desconsiderar o teto de endividamento, usando qualquer de várias opções. Em circunstâncias ordinárias, teria sido passo extremo. Mas ante a realidade do que já estava acontecendo, a saber: a declarada chantagem, praticada por um partido que, afinal de contas, só controla a Câmara e não controla o Senado, teria sido perfeitamente justificável.

No mínimo, o presidente Obama poderia recorrer a qualquer de várias manobras legais para fortalecer sua posição. Fez? Não. Desde o início o presidente descartou todas essas possibilidades.”

Como escreveu Robert Reich[5], professor e ex-secretário do Trabalho dos EUA (governo Bill Clinton):

“Mas outra parte da resposta está com o presidente – e sua incapacidade para, ou nenhuma vontade de, usar a tribuna para informar os norte-americanos sobre a verdade e mobilizá-los para fazer o que tem de ser feito.

Barack Obama é dos homens mais eloquentes e mais inteligentes que jamais habitou a Casa Branca, o que torna ainda mais intrigante e frustrante para nós o seu fracasso, ao escolher não contar aos eleitores a história de nossa geração. Muitos dos que votamos nele em 2008 (inclusive eu) fomos seduzidos pelo poder de suas palavras e de sua visão de América – seu discurso na convenção dos Democratas em 2004, sua autobiografia e, depois, seu livro de política, o que disse sobre racismo e outros temas decisivos durante a campanha.

Todos nos entusiasmamos à perspectiva de um presidente educador – um “educador-em-chefe” que usaria a tribuna para explicar o que aconteceu nos EUA nas últimas décadas, para onde temos de andar e por quê.

Mas o homem que ocupa o Salão Oval desde janeiro de 2009 é alguém completamente diferente – é homem que parece navegar sem bússola, não se entende para onde; tático que um dia anda numa direção, dia seguinte volta atrás, um dia para a esquerda, dia seguinte para a direita, fazedor de ‘acertos’ dentro dos círculos do poder, que jamais explica seus compromissos à rua nem, jamais, fala de seus objetivos maiores.

No discurso de posse, Obama alertou que “a nação não prosperará enquanto só favorecer os prósperos”. Privadamente, diz entender que a crescente concentração de renda e riqueza no ponto mais alto da pirâmide roubou da classe média o poder de compra de que precisaria para manter ativa a economia. E que isso distorceu a política norte-americana.

Sabe perfeitamente bem que a Grande Recessão fez desaparecer $7,8 trilhões no valor das moradias, esmagou os ovos no ninho, eliminando a poupança que permitiria que a classe média continuasse a consumir apesar da queda real no valor dos salários. – E que a quebra no consumo é diretamente responsável pela anêmica ‘recuperação’ que se vê.

Mas, em vez de explicar isso ao povo norte-americano, Obama une-se à ala mais reacionária dos Republicanos para oferecer ao povo uma farsa, uma falsa redução do déficit público, e envolve-se numa patética encenação de penas arrepiadas com os Republicanos... deixando crescer o suspense e a angústia nacional, sobre se o teto do endividamento seria ou não aumentado.

Obama sequer se deu o cuidado de explicar aos cidadãos por que a redução do déficit, de repente, se converteu em prioridade econômica de seu governo. Aos cidadãos, só restou concluir que os Republicanos devem ter razão... e que reduzir o déficit poderá (só deus sabe como!) reviver o crescimento da economia e criar empregos.”

E então surge Bill Clinton[6], Bubba em pessoa, hoje cedo, para dizer o que teria feito se ainda estivesse na Casa Branca:

“O ex-presidente Bill Clinton diz que, fosse ele, teria invocado a chamada opção constitucional para elevar o teto do endividamento “sem hesitar; e teria obrigado as cortes a me processarem”, para impedir o calote, no caso de Congresso e Presidente não chegarem a algum acordo antes do prazo final de 2 de agosto”.

Mas Obama fugiu de usar a 14ª Emenda[7]. Talvez, como Reich sugere, porque:

“Obama simplesmente não tem coragem de contar a verdade. Quer ser visto mais como adulto responsável, do que como resistente. Por isso acaba sempre se deixando prender nas situações – a mais recente, o imbróglio do teto de endividamento – às quais teria de responder. E nunca é o líder que modela as situações, desde o primeiro passo.

Obama não consegue mobilizar os EUA, em outras palavras, porque sempre tenta adaptar-se à ideia dominante. Isso não é presidir.”

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[1] http://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-14364233
[2] http://www.hedgefund.net/publicnews/default.aspx?story=12748
[3] http://www.hedgefund.net/publicnews/default.aspx?story=12748
[4] http://www.nytimes.com/2011/08/01/opinion/the-president-surrenders-on-debt-ceiling.html?_r=1
[5] http://www.huffingtonpost.com/robert-reich/the-empty-bully-pulpit_b_913346.html
[6] http://www.nationalmemo.com/article/exclusive-former-president-bill-clinton-says-he-would-use-constitutional-option-raise-debt
[7] http://www.tnr.com/article/politics/92884/supreme-court-obama-debt-ceiling

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Combates entre rebeldes líbios deixam 8 mortos



Os combates internos acontecem após o assassinato do comandante militar dos insurgentes, Abdel-Fattah Younis, morto pelos próprios rebeldes na semana passada
Líderes dos insurgentes líbios disseram nesta segunda-feira que suas forças fizeram uma caçada a partidários do líder Muamar Kadafi pelas ruas e bairros de Benghazi. Segundo eles, os supostos partidários de Kadafi estavam se infiltrando nas forças rebeldes. Combates ocorreram na madrugada desta segunda-feira, deixando pelo menos oito mortos e aumentando a sensação de crise e insegurança entre os rebeldes líbios.
Os combates internos acontecem após o assassinato do comandante militar dos insurgentes,Abdel-Fattah Younis, morto pelos próprios rebeldes na semana passada. A liderança do Conselho Nacional de Transição, em Benghazi, insiste que Younis foi morto por apoiadores de Kadafi.
O Conselho Nacional de Transição – criado pelas potências estrangeiras que desejam ocupar a Líbia - afirma que suas tropas combateram no domingo e na madrugada de hoje insurgentes que pertencem à unidade al-Nidaa, a qual seria formada por soldados que desertaram de Kadafi e que secretamente seriam leais ao governante.
Um funcionário das forças insurgentes afirmou que as suspeitas a respeito dos al-Nidaa foram confirmadas, quando a inteligência determinou que a unidade estava por trás de dois motins prisionais que irromperam em Benghazi na sexta-feira. Entre 200 e 300 detentos conseguiram fugir, incluídos combatentes que lutavam a favor de Kadafi. Os outros foragidos eram partidários de Kadafi, soldados do exército regular, policiais e detentos acusados de lutar contra os rebeldes.
"Essas pessoas se aproveitaram do caos que resultou da morte de Younis e atacaram a prisão militar e a prisão civil de Kuwaitiya", disse o vice-ministro do Interior dos insurgentes, Mustafá al-Sagezli, reconhecendo duas grandes derrotas para os grupos financiados pela CIA e Otan.
No domingo, os insurgentes atacaram supostos combatentes da unidade al-Nidaa em uma fábrica onde eles se aquartelavam. O ataque teria ocorrido após os rebeldes serem intimados à rendição e se recusado a tal. O ministro da Informação dos rebeldes, Mahmoud Shammam, afirma que 4 combatentes da Al-Nidaa foram mortos, mas se recusou a revelar o número de rebeldes mortos em combates com as forças pró-Kadafi.
Um oficial insurgente que participou da operação, Ismail Salabi, afirmou que 4 "falsos" rebeldes foram mortos e 25 capturados.
Desde a morte do comandante militar dos rebeldes tem reinado a confusão, traições e deserções entre os grupos que desejam dividir a Líbia para permitir o roubo de petróleo (exatamente como acontece no Iraque) por parte dos governos imperialistas da França, Estados Unidos da América e Inglaterra.
Enquanto os rebeldes caminham para uma fragorosa derrota nos próximos dias, os aviões da Otan continuam atacado alvos civis em diversas cidades da Líbia, destruindo a infraestrutura, bombardeando viadutos, rodovias, pontes, hospitais, escolas, com total impunidade.

domingo, 31 de julho de 2011

Guerra contra a Líbia: Uma loucura perversa e mal intencionada


Charles Abugre, o autor, é diretor regional da Campanha “Milênio” da ONU, para a África

A invasão foi planejada e a oportunidade para executá-la, muito propícia.

Há quem diga que “o tempo cura todas as feridas” emocionais. Se fosse assim, por que me sinto cada dia mais furioso, com a escandalosa invasão da Líbia, sob falsos pretextos, há quatro meses? Trata-se exatamente disso: a Líbia está sob ataque por mar e ar, sob bombardeio direto de forças especiais estrangeiras em território líbio. O objetivo exposto da invasão seria o que se tem chamado de “troca de regime”. O objetivo visível das bombas que matam líbios e estão reduzindo a ruínas a capital Trípoli é um só: ajudar um grupo de rebeldes que o ocidente reuniu e armou, a depor o governo do coronel Gaddafi. O bombardeio aéreo começou sob expectativa delirante de que, no instante em que as bombas começassem a cair sobre Trípoli, os líbios de Trípoli levantar-se-iam contra Gaddafi; na situação que assim se criaria, um grupo já armado viria de Benghazi e assumiria o poder. O tempo passou, e, agora, a única estratégica dos invasores é o desespero. Vale qualquer tática para tentar matar ou expulsar Gaddafi e seus filhos.

É exatamente a mesma tática dos anos 1960s, usada outra vez pelos mesmos atores, para derrubar governos que não se ‘subordinaram’. O plano fracassou. Quatro meses depois do início da carnificina, Gaddafi ainda salta do esconderijo de onde resiste e pode gritar insultos contra os exércitos invasores.

A invasão à Líbia foi planejada. No que tenha a ver com os EUA, já estava planejada desde os primeiros dias da ‘guerra contra o eixo do mal’ de George Bush Filho. No que tenha a ver com a França, o planejamento já era ativo, no mínimo, desde outubro de 2010. É altamente provável que o planejamento tenha começado por assegurar que houvesse armas e alguns soldados em Benghazi, à espera do momento propício.

Só isso explica que as manifestações civis em Benghazi, que começaram como outras em Túnis e no Egito, como manifestações de civis desarmados, em apenas dois dias tenham-se transformado em rebelião armada; e que, em menos de um mês, a rebelião local já estivesse convertida em invasão militar por forças da OTAN e da França. É absolutamente impossível que esses eventos tenham-se sucedido tão rapidamente, sem planejamento.

Não há nem o que discutir: é inegável que já havia forças britânicas, holandesas e francesas, além de forças especiais italianas, dentre outras, em campo, não só em Benghazi mas por todo o país. São fatos já sabidos: a mídia britânica noticiou; como houve notícias, também, do modo como Holanda e Grã-Bretanha tentavam introduzir soldados de suas forças especiais na Líbia, nos primeiros momentos das manifestações. Houve o caso do helicóptero de forças especiais britânicas que pousou no meio de tropas rebeldes e foi imediatamente capturado e a captura foi comemorada... antes que os rebeldes percebessem que eram ‘soldados aliados’. Dias depois, os holandeses fizeram ainda pior: pousaram onde não deviam pousar e foram capturados pelas forças de Gaddafi, que os fez fotografar pela imprensa e em seguida devolveu-os à Europa. Para saber que nada ali havia sido forjado, bastava ver o brilho no rosto do filho de Gaddafi.

Já havia penetração clandestina de forças especiais em território líbio, como informa Franco Bechis, jornalista italiano, na edição de 24 de março do jornal Libero[1] (matéria reproduzida em www.economicsnewspaper.com[2]), no mínimo, em 16/11/2010, quando um grande grupo de franceses chegou a Benghazi, apresentando-se como empresários que sondavam oportunidades de negócios para investir na agricultura líbia. Muitos desses ‘empresário’ eram, de fato, soldados.

Segundo Franco Bechis, no Maghreb Confidential[3], os franceses começaram a planejar ativamente a troca de regime na Líbia dia 21/10/2010, quando Nuri Mesmar, chefe de protocolo de Gaddafi e seu braço direito, chegou a Paris para uma cirurgia. Mesmar não esteve com médicos. Todos seus contatos foram agentes do serviço secreto francês e assessores próximos de Sarkozy. Mesmar também era responsável pelo ministério da Agricultura. Dia 16 de novembro, Mesmar aprovou a estratégia de introduzir soldados na Líbia, disfarçados como delegação de empresários. Dois dias depois, um avião pousou em Benghazi, levando soldados, dentre outros agentes, e ali se reuniram, dentre outros, com comandantes militares líbios; o objetivo era convencê-los a desertar. Um dos que concordou foi o coronel Gehan Abdallah, que, chegado o momento, liderou a rebelião armada. De onde veio essa informação? Do serviço de inteligência italiano.

A função de Nuri Mesmar – os franceses usaram-no para apunhalar pelas costas um seu amigo, que o receberia sem cautelas – é velha como a história de Brutus e Cesar, na peça Julius Caesar de Shakespeare; faz pensar também no que fez o capitão Blaise Campaoré de Burkina Faso, usado pelos franceses para executar seu mais íntimo amigo, Thomas Sankara.

Mas não foram só os franceses que planejaram o movimento ‘dos rebeldes’ de Benghazi. O chefe do Conselho Nacional Líbio, coronel Khalifa, chegou dos EUA dia 14 de março, para comandar a rebelião armada, um mês depois de iniciada. O coronel Khalifa vivia nos EUA desde os anos 1980s, trabalhando, como se suspeita como agente da CIA. Esse fato foi revelado em livro publicado em 2001, de Pierre Pean, intitulado “O Manejo da África” [African Handling]2.

A edição de 31 de março do New York Times publicou matéria em que se lê: “A CIA infiltrou agentes secretos na Líbia para reunir inteligência de orientação para ataque aéreo e fazer contato com veteranos e rebeldes que combatem as forças do coronel Gaddafi, segundo declararam agentes americanos.”[4] Khalifa, Mesmar e outros serão acompanhados, na liderança do Governo Provisório por alguns dos mais temidos membros do regime de Gaddafi, entre os quais Jalil Mustafa Abud, que até o levante fora ministro da Justiça e é listado pela Anistia Internacional como um dos mais notórios violadores de direitos humanos do planeta.

Ridículos falsos pretextos

Escolhi deliberadamente a expressão “ridículos falsos pretextos” para caracterizar as desculpas que foram servidas à opinião pública, por imprensa facciosa. Por quê? A resolução n. 1.973 da ONU define o único objetivo de “proteger civis”. Há dois conjuntos de princípios a partir dos quais se pode inferir que seja o caso de proteger civis. Um, o princípio segundo o qual todos os combatentes são responsáveis, nos termos da Convenção de Genebra. Esse princípio está acolhido nas resoluções do Conselho de Segurança n. 1.265, 1.296 e 1.820, dentre outras.

Combatentes armados, dos dois lados em luta, que violem a Convenção de Genebra, podem ser considerados responsáveis, nos termos dessas resoluções, e podem ser apenados e, por extensão, podem ser levados à Corte Internacional de Justiça Criminal [ing.International Criminal Court (ICC)], pela prática de violações definidas como crimes contra a humanidade e crimes de guerra ou genocídio. Mas essas resoluções, evidentemente, não legalizam nenhuma intervenção militar por força estrangeira.

O segundo princípio é o princípio da “responsabilidade de proteger” (“R2P”). Baseia-se no conceito de segurança ‘sem limites de fronteira’, que é título do relatório da Comissão sobre Intervenção e Soberania do Estado [ing. International Commission on Intervention and State Sovereignty (ICISS)] divulgado em dezembro de 2001 e subsequentemente adotado como princípio operacional pela ONU. Essa comissão, presidida por Gareth Evans e Mohamed Sahnoun, estudou o relacionamento entre (a) os direitos dos estados soberanos, sobre os quais se construíram a maior parte das relações internacionais; e (b) o chamado “direito de intervenção humanitária” que tem sido exercido esporadicamente – na Somália, Bósnia e Kosovo, mas não em Ruanda –, com graus variados de sucesso e controvérsia internacional.

O relatório examina a seguinte questão: “em que casos será apropriado que estados empreendam ação coercitiva – especificamente militar – contra outro estado, com vistas a proteger pessoas que estejam em risco naquele outro estado”.

O estudo concluiu que a prioridade deve ser garantida aos seres humanos, não à soberania do estado. Portanto, se houver ameaça à segurança de seres humanos – à segurança física e à dignidade humana – e ameaça criada pelo estado, ou no caso de o estado manifestar incapacidade severa para defender seus cidadãos, a comunidade internacional passará ter a responsabilidade de agir, incluída aí a ação de intervenção militar armada. O princípio R2P impõe que a lei humanitária se sobreponha aos direitos de soberania. O princípio R2P tem sido muito citado, sobretudo por organizações humanitárias ocidentais, e a ONU tem celebrado sua adoção.

Mas há também os que chamam a atenção contra os riscos de adotar-se esse princípio, e por inúmeras razões. Em primeiro lugar, pôr a lei humanitária à frente da soberania implica impor razões humanitárias acima dos direitos do cidadão, que dependem de respeito à soberania. Em segundo lugar, o princípio R2P abre a porta para intervenções seletivas e justiça seletiva, que passa a poder ser exercida por quem controle o Conselho de Segurança da ONU. Cria-se assim uma relação em que todos os países passam a depender politicamente (e legalmente) do Conselho de Segurança da ONU e de países militarmente fortes. Assim, se acabará por minar as próprias fundações da justiça e da paz duradoura, que dependem de processos políticos locais, domésticos.

Mas fato é que a Resolução n. 1.973 foi elaborada sob o pretexto do R2P, para ‘legalizar’ a invasão à Líbia. Os países da OTAN desejavam invadir, isso sim; não apenas minimizar algum eventual dano que os civis líbios viessem a sofrer. Os países da OTAN invadiram para derrubar o governo do coronel Gaddafi.

É razoável invadir militarmente um país, alegando razões humanitárias? É, no mínimo, muito discutível. No caso da Líbia, a resposta certa só seria conhecida depois da invasão... no caso de as forças de Gaddafi virem a bombardear Benghazi como Gaddafi ameaçou fazer. O que se sabe hoje é que a força aérea de Gaddafi não bombardeou alvos civis em Benghazi, e, como a Anistia Internacional já declarou, não se constataram estupros em massa pelas forças do estado líbio. Também se sabe que a repressão violenta contra a manifestação civil do dia 15 de fevereiro não foi a primeira. O último grande caso de repressão violenta contra manifestantes aconteceu na Líbia em 2006. Como vários ditadores norte-africanos e do Oriente Médio, Gaddafi reprimiu com violência o levante de 2006, feriu alguns e prendeu outros. Não houve assassinatos em massa e, naquela ocasião, a ação de Gaddafi foi tacitamente apoiada – com destaque para o apoio que recebeu dos EUA – como legítima resposta à influência maléfica da Al-Qaeda.

A verdade simples é que, dois dias depois de iniciado o levante popular, a situação já era de guerra na Líbia. Já estava convertida em insurgência armada; e todos os estados têm pleno direito de usar o exército contra insurgência armada.

Estamos cansados de ver acontecer nos EUA, sempre que respondem a fanáticos religiosos ou a gangues de traficantes em bairros pobres, de maioria negra.

Não haveria melhor modo de proteger vidas humanas? Claro que sim, se dessem uma chance à paz.

Todos sabemos que o presidente Lula da Silva (ex-presidente do Brasil) ofereceu-se para liderar uma missão de mediação, que tentaria negociar um cessar-fogo.

Foi iniciativa apoiada por países da América Latina, pela União Africana e, até, pela sempre acovardada Liga Árabe. Gaddafi aceitou a ideia de um cessar-fogo, desde que as forças internacionais também aceitassem. A NATO rapidamente destruiu essa iniciativa, com seus vassalos em Benghazi. A missão da União Africana foi humilhada em Benghazi e toda a grande mídia ocidental dedicou-se a promover ‘debates’ que nada fizeram além de ridicularizar as iniciativas da União Africana. Ninguém deu qualquer chance à paz. Por quê? Porque a agenda real visava a derrubar Gaddafi, não a proteger civis.

Se a intervenção militar seria tão boa via para proteger civis, por que a OTAN não invadiu o Iêmen, onde levante absolutamente pacífico foi suprimido a tiros, com munição real e máxima brutalidade? Robert Gates, que até recentemente foi secretário de Defesa dos EUA respondeu: “Não nos parece que seja nossa obrigação intervir nos assuntos internos do Iêmen”. Talvez, porque o ditador do Iêmen seja “nosso ditador”? Talvez porque lute contra separatistas de esquerda, de quem “nós! não gostamos? Talvez porque o Iêmen hospede a 5ª. Frota dos EUA?

E quanto ao Bahrain, minúsculo. onde a família real é proprietária de quase todas as ilhas que compõem o reino, e onde, com apoio de soldados sauditas, grande número de manifestantes desarmados foram fuzilados nas ruas? Ouve-se algum boato de que o sultão será julgado pela Corte Internacional de Haia? Esse, precisamente, é o uso discriminatório, seletivo, do princípio da ‘responsabilidade para proteger’ que muitos tanto temiam. [Continua]



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[1] “Libia. La Francia ha armato i ribelli di Bengasi? Le manovre degli 007 di Sarkò con un fedelissimo di Gheddafi”, emhttp://www.blitzquotidiano.it/politica-mondiale/libia-francia-ribelli-bengasi-007-gheddafi-794604/, 23/3/2011 (em italiano) emhttp://www.blitzquotidiano.it/politica-mondiale/libia-francia-ribelli-bengasi-007-gheddafi-794604/
[2] “Understanding the war in Libya”, Economics Newspaper, em http://economicsnewspaper.com/economics/understanding-the-war-in-libya-11018.html
[3] Em português, no Blog Maria Frô, 25/3/2011, em http://mariafro.com.br/wordpress/2011/03/25/bechis-servico-secreto-frances-conspira-contra-gadaffi-desde-novembro/ (tradução de Victor Farinelli).
[4] “C.I.A. Agents in Libya Aid Airstrikes and Meet Rebels”, New York Times, 31/3/2011, em http://www.nytimes.com/2011/03/31/world/africa/31intel.html?_r=1&hp. A matéria prossegue: “Apesar de o presidente Obama insistir em que nenhum militar norte-americano participa da campanha na Líbia, pequenas unidades de agentes da CIA já trabalham na Líbia há várias semanas, como parte de força clandestina ocidental que o governo Obama espera que possa ajudar a sangrar o exército de Gaddafi – disseram fontes oficiais.” Em http://slantedright2.blogspot.com/2011/03/libya-conflict-situation-update.html, que visivelmente é página da extrema direita dos EUA, reúne matérias de praticamente todos os grandes jornais dos EUA, da mesma data, dizendo, todas, exatamente a mesma coisa: que a CIA estava na Líbia em março de 2011 [NTs].

sábado, 30 de julho de 2011

Morte de comandante divide rebeldes na Líbia


A morte do comandante Abdul Fattah Younes, chefe militar dos grupos rebeldes financiados pelo ocidente em Benghazi, enfraqueceu ainda mais a oposição ao líder Muamar Kadafi.
Enquanto o cortejo fúnebre de Abdul Fattah Younes levava o caixão para a sepultura, combatentes mercenários recém-chegados do front de batalha estavam desiludidos e acusavam o golpe da morte do comandante militar dos rebeldes líbios.
Para o povo árabe líbio, que mais uma vez resiste heroicamente a uma guerra de agressão de potências invasoras, Younes mereceu o fim que teve porque traiu a Revolução libertadora Al Fateh, e tentou vender o país a potências sanguinárias e opressoras – EUA, França e Inglaterra, com centenária tradição de escravização e domínio de nações africanas.
Younes foi ministro da Segurança de Kadafi até fevereiro, quando rompeu com o regime em vigor há 41 anos e aderiu aos rebeldes que tentam derrubar Kadafi. Sua morte, ocorrida na quinta-feira, foi um golpe para os rebeldes e para os seus apoiadores ocidentais, e certamente contribuirá com a derrota dos grupos rebeldes financiados pelo ocidente, a serviço do imperialismo norte-americano.
Detalhes sobre o assassinato de Younes permanecem confusos ou não revelados pela imprensa ocidental, mas o chefe rebelde mercenário Ali Tarhouni disse na noite de sexta-feira que combatentes rebeldes que haviam sido despachados para levá-lo do front, perto de Brega, para prestar um depoimento em Benghazi, o mataram e desovaram seu corpo nos arredores da cidade.
Um líder miliciano foi preso e confessou que seus subordinados cometeram o homicídio, segundo Tarhouni, mas outrosrebeldes disseram que foram todos executados.
No enterro, o cemitério de Benghazi mais parecia um campo de batalha, de tão intensos eram os disparos feitos por fuzis AK-47, metralhadoras e baterias antiaéreas. Os participantes eram atingidos pelas cápsulas vazias cuspidas pelas armas, e o cheiro de pólvora dominava o ambiente.
"O general Abdul Fattah Younes era nosso pai. Ele era um símbolo da revolução", disse o coronel Ali Ayad, que voltou do front de combate ao saber da morte de Younes.
Diante do caixão coberto com a bandeira vermelha, preta e verde da monarquia Líbia, os mercenários presentes gritavam "Allahu Akbar" ("Deus é grande"). O féretro passou entre duas filas de combatentes, vários deles portando fotos de Younes, outros agitando bandeiras da monarquia.
Ayad ameaçou com vingança e acusou partidários de Kadafi infiltrados no leste rebelde de terem assassinado Younes. Outros disseram haver traidores entre as fileiras insurgentes. Esses e vários outros rumores e teorias conspiratórias circulavam por Benghazi, a "capital" dos rebeldes, que ainda não foram dizimados porque contam com apoio militar da Otan, isto é, dos EUA, França e Inglaterra.
Analistas dizem que a morte de Younes, ex-comandante das forças insurgentes, é apenas aponta de um iceberg que revela a fragilidade dos rebeldes. Centenas de apoiadores do líder Muamar Kadafi estariam infiltrados nas fileiras dos rebeldes, incentivando divisões e conflitos internos. A disputa pela sucessão de Younes, e o acesso a milhares de dólares das potências estrangeiras, estaria sendo disputada por Khalifa Heftar, que não tem apoio da maioria dos rebeldes porque no passado foi um dos mais leais servidores do governo líbio.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Principal líder militar rebelde líbio está morto


O chefe das forças armadas dos rebeldes da Líbia e dois de seus assessores foram mortos nesta quinta-feira, informação confirmada pelo chefe da liderança rebelde.
A morte de Abdel Fattah Younes – que pode significar o fim da guerra na Líbia ou seu recrudescimento – foi anunciada numa conferência de imprensa na capital rebelde, Benghazi, pelo chefe do “Conselho Nacional de Transição”, Mustafa Abdul Jalil. Ele disse aos jornalistas que a própria segurança dos rebeldes havia prendido o chefe do grupo e provavelmente estava por trás do assassinato.
Segundo Jalil, a segurança rebelde prendeu Younes e dois de seus assessores na quinta-feira, em sua sala de operações, localizada próxima à frente dos rebeldes do leste. Autoridades de segurança disseram que Younes seria questionado sobre as suspeitas de que sua família ainda tinha laços com o regime de Muammar Gaddafi. Younes foi ministro do Interior de Gaddafi, antes de desertar para os rebeldes no início do levante, que começou em fevereiro.
Jalil disse que Younes havia sido convocado para um interrogatório sobre "uma questão militar". Ele afirmou que Younes e seus dois assessores, um coronel e um major, foram baleados antes que chegassem para o interrogatório.
A morte de Abdel Fattah Younes é um duro golpe para a OTAN que vem apoiando os rebeldes que atuam em Benghazi e aterrorizam a cidade há quatro meses. Younes tornou-se chefe militar da rebelião com o apoio de estrangeiros ligados à Al-Qaeda e militares da OTAN. Após a notícia de sua morte, a população que não apóia a movimentação rebelde, saiu às ruas e retomou o controle do aeroporto local e algumas bases militares.
Os rebeldes vêm recebendo apoio dos EUA, Grã-Bretanha, França e outros membros da OTAN e nos últimos dias haviam recebido o reconhecimento como liderança legitima da Líbia pelo governo britânico. A mídia ocidental vem procurando minimizar o apoio da Al-Qaeda ao grupo de oposição.
Há ainda relatos de que um grupo dissidente dos rebeldes avançou sobre membros do “Conselho Nacional de Transição” exigindo nova liderança civil. Outro grupo exige a devolução do corpo de Abdel Fattah e seus assessores. O grupo responsável pelas mortes se recusa a entregar os corpos para suas tribos de origem e afirmam ter enterrado os corpos sem cerimônias, em retaliação aos quatro meses de ocupação que obrigaram grande parte da população a fugir pela fronteira com o Egito, deixando suas casas para serem saqueadas pelos grupos rebeldes.
As mulheres que escolheram ficar relatam que foram forçadas a se vestirem com o véu completo, quando antes tinham a liberdade de escolher se o usariam ou não. Cidadãos estão confinados em suas casas e temem ser punidos, com tortura ou morte, se forem pegos com qualquer objeto que identifique apoio a Muammar Gaddafi, como o menino que foi empalado com a bandeira verde, símbolo do apoio ao governo líbio. Alguns vídeos contêm tantas atrocidades postadas com “orgulho” pelos próprios rebeldes, que são constantemente retiradas pelo Youtube.
O governo líbio, através de seu porta-voz Musa Ibrahim, vem afirmando que seu exército apenas atua na tentativa de “proteger cidadãos e famílias nas cidades ocupadas”, para que não haja abusos, mas que ordenou que “evitem conflitos diretos dentro das cidades”. Um vídeo mostra tropas do exercito líbio correndo na direção contrária ante o avanço dos rebeldes que parecem em sua maioria, desarmados nesse momento. Nenhum dos lados atira, é clara a intenção dos soldados em apenas recuar estrategicamente.
O líder rebelde Mustafa Abdul Jalil se referiu a Younes como “um dos heróis da revolução de 17 de fevereiro", data de início dos protestos contra o regime de Gaddafi.
Ele afirmou que Gaddafi vem procurando quebrar a unidade das forças rebeldes, mas fez uma advertência dura acerca de "grupos armados" que estavam atuando em cidades controladas pelos rebeldes, dizendo que eles “precisavam se juntar à luta contra Gaddafi, ou corriam o risco de serem presos pelas forças de segurança”.
Houve relatos de tiros fora do Hotel Tibesti, onde a conferência de imprensa foi realizada, logo após as declarações de Jalil. O líder rebelde não respondeu a nenhuma pergunta.
Uma hora depois, pelo menos três fortes explosões sacudiram o centro da capital Trípoli. Duas explosões foram ouvidas por volta das 10h20min da noite, hora local, seguida por outra explosão alguns minutos depois. A televisão líbia relatou que aviões estavam sobrevoando a cidade. Trípoli tem sido alvo de numerosos ataques aéreos da OTAN mesmo não tendo registros de conflitos rebeldes.
Enquanto isso, combatentes da oposição nas montanhas ocidentais lançaram ataques em várias cidades controladas pelo governo, na esperança de empurrar as tropas legalistas e abrir uma rota para a fronteira. Em especial a fronteira para o Egito, que está fechada há alguns dias.
Os ataques começaram por volta do amanhecer com rebeldes ao redor das cidades de Nalut e Jadu em uma tentativa de expulsar as forças leais ao líder Muammar Gaddafi do sopé da montanha Nafusa. Por volta do meio-dia local, os rebeldes haviam tomado e perdido, logo em seguida, a cidade de al-Jawsh.
No último domingo, a rede Globo de televisão – cuja cobertura na Líbia tem se limitado a reproduzir as agências internacionais – mostrou imagens que um líbio radicado no Brasil, vivendo na cidade de Goiânia, fez em visita à Benghazi. Ele afirmou que esteve na cidade visitando familiares e acabou testemunhando o “momento exato em que os conflitos começaram”.
No entanto, apesar da narração em off que procura descrever os “horrores da guerra na Líbia”, nenhuma das imagens mostra de fato qualquer ataque direto das tropas de Gaddafi contra os rebeldes. Não há imagens, pelo menos nessas que foram mostradas no programa “Fantástico”, de soldados líbios atacando, atirando ou batendo em cidadãos. Em sua maioria, aparecem homens correndo, gritando e atirando para cima com pesadas armas instaladas em caminhonetes como se pode ver nas imagens da própria reportagem.
A narração em off das imagens é tendenciosa, como sempre fizeram com a questão Palestina, com a guerra no Afeganistão, com a invasão do Iraque e suas “armas de destruição em massa” que jamais existiram. Observem a cena em que a repórter narra que um “soldado líbio obriga um rebelde a gritar o nome de Gaddafi e depois ouvem-se tiros”. Onde está o soldado, ele é o que segura a câmera?
As cenas podem realmente ser de conflitos diretos entre rebeldes e tropas de Gaddafi (ainda que os soldados líbios não apareçam em nenhum momento, exceto quando filmados caminhando nas ruas de Misrata), mas também podem ser de conflitos entre as próprias tribos rebeldes, ou entre rebeldes e cidadãos que são contra as atrocidades que vem ocorrendo em Benghazi.
O cidadão líbio que cedeu as imagens afirmou que o “povo líbio vive na pobreza”, o mesmo povo líbio que possui a maior renda per capita de todo o continente africano, dados confirmados por organizações internacionais, inclusive a ONU. Os motivos podem ser legítimos, mas com certeza não são esses.
Vai ficando cada vez mais claro o erro da mídia ocidental e dos países que escolheram um dos lados dessa guerra. A história humana vem mostrando que isso sempre dá errado.
Relatório recente da Anistia Internacional afirmou não ter encontrado evidências das acusações que constam no Tribunal Penal Internacional contra a Líbia e Muammar Gaddafi. Pior, a mesma Anistia Internacional afirmou que encontrou evidencias de que os rebeldes em Benghazi estavam matando seus compatriotas quando estes não aderiam à guerra. Famílias denunciaram os abusos aos repórteres estrangeiros hospedados nos luxuosos hotéis oferecidos à imprensa para a cobertura da guerra na Líbia, mas sobre isso, a mídia se calou.
O jornalismo e os jornalistas acreditam que não têm culpa alguma nisso tudo, mas é bom começarem a assumir sua cota de responsabilidade agora que muitas cortinas estão se levantando.

Juliana Medeiros
Com informações da Al Jazeera, RussiaToday, Mathaba e agências